CORRUPÇÃO: Empresário detalha como pagava propinas a dirigentes do futebol desde 1991

O empresário brasileiro José Hawilla, conhecido como J. Hawilla, dono da empresa de marketing esportivo Traffic, depôs nesta segunda-feira, no Tribunal Federal do Brooklyn, em Nova York, e deu detalhes minuciosos sobre como subornou dirigentes esportivos desde 1991. J. Hawilla passou a colaborar em 2014 com as autoridades americanas e se declarou culpado por crimes de corrupção e obstrução da Justiça, concordando em pagar US$ 151 milhões ao governo dos Estados Unidos. O empresário é acionista da TV Tem, afiliada da Rede Globo.

Hawilla fez um acordo segundo o qual não pode sair dos Estados Unidos enquanto a sentença dele não for decidida. Ele pode viajar dentro do território americano e aguarda a sentença, que deverá ser proferida no dia 23 de abril do ano que vem.

O empresário prestou depoimento nesta segunda-feira como testemunha de acusação no processo contra o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da CBF, de 2012 a 2015; o paraguaio Juan Angel Napout, ex-presidente da Conmebol; e o peruano Manuel Burga, ex-presidente da Federação Peruana de Futebol. Ele depôs na corte com um balão de oxigênio ao lado de seu assento, a barba grisalha grande e um semblante bastante cansado. As testemunhas que confessaram crimes e colaboram com as investigações americanas não entram pela porta da frente do tribunal e não podem ser filmadas, nem fotografadas.

Ricardo Teixeira é acusado de receber propina (Foto: Reuters)Ricardo Teixeira é acusado de receber propina (Foto: Reuters)

Ricardo Teixeira é acusado de receber propina (Foto: Reuters)

Como parte do acordo de delação premiada, Hawilla gravou várias conversas que teve com outras pessoas envolvidas no esquema de corrupção no futebol. Nesta segunda, os promotores começaram a mostrar essas gravações ao júri. Numa delas, é mencionado, sem detalhes, o envolvimento de José Maria Marin e do atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, no caso. Em depoimentos anteriores, outros delatores, como Alejandro Burzaco e Eladio Rodríguez, disseram que pagaram subornos a Marin e a Del Nero.

No depoimento, o empresário detalhou um esquema corrupto iniciado antes do mandato dos três réus. Hawilla contou que, há 26 anos, foi abordado pela primeira vez com um pedido de suborno, pelo então presidente da Conmebol, Nicolás Leoz. O dirigente teria pedido propina, em 1991, para renovar um contrato de direitos comerciais da Copa América. Hawilla pagou. Em vários momentos, ele se disse arrependido de pagar propinas para os dirigentes.

Depois desse contrato, incluindo as edições da Copa América de 1993, 1995 e 1997, o empresário afirmou, no depoimento, que o pagamento de propina se tornou essencial para a manutenção dos negócios da Traffic. Além de Leoz, Hawilla afirmou que outros dois dirigentes recebiam subornos: Julio Grondona, ex-presidente da Associação do Futebol Argentino (AFA) entre 1979 e 2014, e Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF entre 1989 e 2012.

O procurador americano Samuel Nitze perguntou a Hawilla sobre a mecânica dos pagamentos a Ricardo Teixeira.

– Você concordou em fazer pagamentos para Ricardo Teixeira?

– Sim – respondeu Hawilla.

– Como você fez o dinheiro chegar até ele? – insistiu o procurador.

– Foi uma combinação que foi feita para que a selecão brasileira jogasse com seus principais jogadores, a mesma combinação que foi feita com o Julio Grondona – respondeu Hawilla.

– Qual mecanismo o senhor usou para transferir dinheiro para Ricardo Teixeira?

– Que quantias o senhor pagou para Ricardo Teixeira em conexão com a Copa América?

– Começou, acho, que com 1 milhão de dólares, depois passou para 1.2 milhão, não 1.5, depois 2, depois 2.5, depois 3 milhões – respondeu Hawilla.

Além de Ricardo Teixeira, o atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, também foi denunciado pela Justiça americana no esquema de corrupção do Caso Fifa. No entanto, nenhum dos dois está sendo julgado porque o Brasil não extradita cidadãos brasileiros. Julio Grondona morreu no dia 30 de julho de 2014. Já Nicolás Leoz cumpre prisão domiciliar no Paraguai e recorre em seu país de um pedido de extradição para os Estados Unidos que foi aceito em primeira instância por um juiz do Paraguai.

Advogado de Ricardo Teixeira, Michel Assef Filho repudiou o depoimento:

– Ricardo nega veementemente as acusações irresponsáveis do delator e réu confesso José Hawilla. Ele desafia o delator a informar os nomes dos doleiros e as contas onde as propinas supostamente foram pagas, já que tais pagamentos nunca existiram. Sobre a acusação em relação a ter recebido propina para que fossem escalados os melhores jogadores para disputar a Copa América, Ricardo não só nega a acusação, como tem provas de que tais valores foram objeto de contrato e de pagamento realizado na conta da CBF. Informa ainda que Ricardo não está sendo julgado, e é uma covardia ser atacado sem ter direito de defesa e do contraditório dentro processo judicial – afirmou o advogado.

Uma hora depois, Ricardo Teixeira respondeu ao GloboEsporte.com e ironizou as acusações.

– Meu advogado já respondeu, mas eu desafio a dar os nomes dos doleiros e as contas em que teria sido depositado esse dinheiro. Já falaram (o argentino radicado no Brasil José “Lázaro” Margulies) que eu tinha conta em Israel, em Hong Kong. Quem quiser pegar essa grana que eles dizem que eu tenho em Hong Kong e Israel, pode pedir procuração que eu dou para gastar por conta. Eles me botaram em reunião em que não estive – afirmou Teixeira.

A trajetória de Hawilla foi resumida por ele mesmo no depoimento de 2014. Em 1980, fundou uma empresa de marketing esportivo. Em 1991, pagou propina pela primeira vez a Nicolas Leoz, então presidente da Conmebol, para obter um contrato de transmissão da Copa América. Nunca mais parou de subornar dirigentes. Até ser preso em 2013.

Em 2010, Hawilla provou do próprio veneno. A Traffic levou uma rasteira da Full Play, empresa argentina que subornou os dirigentes da Conmebol para conseguir os direitos de transmissão e de marketing da Copa América – torneio que era da empresa de Hawilla desde os anos 1980.

A edição de 2011 foi a última da Traffic. A Conmebol vendeu os torneios de 2015, 2019 e 2023 para a Full Play. Como o contrato da Traffic iria até 2015, Hawilla foi à Justiça: num tribunal de Miami, processou tanto a Conmebol quanto as dez federações nacionais do continente.

O caso arrastou-se por dois anos, até que um grande acordo foi fechado em 2013. Hawilla retirou a ação na Justiça, e a Traffic juntou-se com a própria Full Play e mais a Torneos, outra empresa argentina, para formar uma nova agência, chamada Datisa. A Datisa então fez o de sempre: pagou milhões de dólares em subornos e obteve os direitos comerciais e de transmissão da Copa América.

As três empresas estão no centro do escândalo de corrupção que ficou conhecido como “Caso Fifa”. Os chefões da Traffic e da Torneos pagaram multas milionárias para o governo dos EUA, confessaram e delataram dezenas de cartolas. Os donos da Full Play estão soltos na Argentina.

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